Divirta-se Fotografando Stills

Palestra no Estúdio Brasil 2010

A palavra “still” vem do inglês. Em uma de suas acepções, quer dizer parado, calmo, sem movimento etc. Trata-se de uma redução de “still life”, do inglês, “vida sem movimento”. Em português, o equivalente idiomático é “natureza morta”, mas em fotografia o termo não pegou comercialmente. Daí a razão pela qual nos valemos da expressão em inglês.

Para a maioria das pessoas, fotografar stills é uma prática muito tediosa e pouco interessante. No entanto, se você se interessa em aprender as várias técnicas de iluminação, tanto básicas como sofisticadas, a melhor opção é começar com produtos. Desde um pequeno anel de diamantes até grandes cenários, a luz é a chave. Depois vem a sensibilidade estética e o estilo do fotógrafo. De todas as especialidades da fotografia, a mais diversificada e produtiva é o still. Novos produtos são lançados diariamente, novos cosméticos, novas receitas, novas bebidas, novos alimentos, sucos, águas, roupas etc. A dinâmica do mercado moderno obriga os clientes a renovarem o visual de seus produtos e embalagens, para se destacarem da concorrência. Sempre haverá muito trabalho.

Outras vantagens

Para quem está começando uma carreira, fotografar stills tem vantagens ainda maiores. Não há aquela pressão e comoção causada por uma equipe de produção, mas, sim, calma e tranquilidade. O fotógrafo tem total controle e tempo para estudar, preparar e compor seus objetos e suas luzes. Enfim, ele não tira as fotos; ele constrói as fotos.

O estúdio de still

Diferentemente de um estúdio de moda, onde o fotógrafo depende em princípio só de luzes e câmera, o fotógrafo de still, dada a grande variedade de situações que enfrenta a cada dia, depende de muitas ferramentas e apetrechos. Costumo dizer que há pelo menos mil maneiras de montar um estúdio. Cada fotógrafo tem suas peculiaridades e idiossincrasias. Eu apostaria que não existem dois estúdios idênticos.

Luzes

Um fotógrafo de gente, em um estúdio, vai certamente preferir luzes de flashes para congelar os movimentos. Um fotógrafo de still – “sem movimento” – pode e deve usar luzes de tungstênio ou luzes quentes i.e. luz continua, para ter mais controle das nuances da iluminação de seus produtos. No momento em que se usa a luz do flash não sabemos como vai ficar a foto, já que vemos através da luz “modelo” e fotografamos com a luz do flash. A maior vantagem da luz contínua é que o que se vê é o mesmo que aparece na foto. Muito mais simples e muito mais prático.

Traquitanas

O que vou mostrar hoje são soluções baratas e práticas para quem não quer investir muito e tem o espírito prático. São algumas traquitanas que me apossei e outras que desenvolvi em minhas aventuras pelo mundo da fotografia.

1. 3 tabelas – Têm inúmeras utilidades no estúdio. Praticamente são indispensáveis. Normalmente cada fotógrafo faz um grupo delas do mesmo tamanho para serem empilhadas ou dispostas simetricamente, etc. Uma curiosidade: originalmente e até hoje os americanos as chamam de apple-box, pancake-box e half-pancake-box, conforme ilustrações.

2. Pot Stands – também chamados… de tripés de fotógrafo pobre. São muito práticos e funcionais. Não ocupam os espaços dos “três-pés” e são muito estáveis. São construídos simplesmente com um sarrafo de madeira, uma lata de um galão e cimento. Modo de construir: antes de cimentar o sarrafo à lata, utilize vários pregos que impedirão que o mesmo se desprenda do cimento depois de seco, conforme a imagem abaixo. Uma dica importante é de que, antes de utilizar a lata, seu fundo seja martelado para dentro, de modo a não ficar convexo, abaolado para o lado de fora depois.

Abaixo, em (1) vemos os pot stands depois de prontos. Em (2), um pot stand com a cantoneira presa a ele por uma garra. Isso permite uma grande variedade de posicionamentos e, como o pot stand é pesado, a estabilidade é garantida. Enfim, em (3), temos os pot stands usados para apoio do objeto e posicionamento de dois refletores, um branco e um prateado.

3. Cantoneiras fixas – essas traquitanas que eu chamo de “cantoneiras” (1) servem como articulações dos pot stands. Unindo-se um pot stand e uma cantoneira por meio de uma garra, tem-se um instrumento de grande valor para o estúdio (2); versátil, seguro, que ocupa pouco espaço e muito barato, limitado dentro de suas funções quase que somente pela criatividade do fotógrafo.

4. Minibooms – 1. (a) base de metal, (b) haste de ferro batido, (c) pivô macho com cavilha de madeira, (d) extensão de madeira. 2. Boom montado. 3. Boom com refletor branco girando para cima. 4. Boom com refletor prateado girando para baixo. 5. Boom com extensões variadas. 6. Detalhe de pivô.

Pré-produção de garrafas

Na palestra, preparamos duas garrafas. Abaixo, segue um guia passo-a-passo de como fazer a pré-produção de uma garrafa para a foto.

1. Os rótulos de papel nunca estão corretamente ou simetricamente colados nas garrafas. Para sua remoção, deixa-se a garrafa de molho em temperatura ambiente por 24 horas; é o que faz o rótulo se desprender do vasilhame. Assim, a cola dissolve e o papel se desprende sem muito esforço.

2. Para o caso de rótulos plásticos, não é necessário deixar o vasilhame de molho. Cada tipo de cola adesiva tem um químico correspondente para sua remoção. Neste caso, utilizamos benzina. Para apagar a data de validade impressa diretamente na garrafa, utilizamos álcool etílico.

3. É aconselhável remover o rótulo com cuidado para que não restem vestígios de cola ou papel na garrafa. Este rótulo pode ser descartado, já que normalmente o cliente fornece rótulos novos e com qualidade fotográfica, de modo a agilizar a pós-produção.

4. Reservada a garrafa, é hora de preparar um “spray booth”, que pode ser qualquer cabine, de modo a não deixar que o conteúdo do spray se espalhe pelo estúdio. Recomenda-se mesmo a aplicação de qualquer spray ao ar livre e o uso de máscara, devido à toxicidade química envolvida. Após construída a cabine de spray, que pode ser reutilizada muitas vezes, aplica-se spray adesivo permanente sobre o rótulo avulso enviado pelo cliente — na ilustração, no centro da cabine.

5. Em seguida, cola-se o rótulo na garrafa. O adesivo deve ser do tipo permanente para garantir a fixação do rótulo, portanto é preciso fazer a colagem com precisão.

6. Reserva-se a garrafa novamente para a fabricação de uma máscara de proteção, para que uma face da garrafa receba a camada de spray enquanto a outra fica intacta. Corta-se um pedaço de papel na medida da altura da garrafa e em metade de seu perímetro aproximado, para que a máscara possa envolvê-la.

7. Cada lado do recorte de papel é guarnecido com fita crepe para que possa ser afixado à garrafa.

8. Primeiramente, cobre-se a frente da garrafa, de forma a ocultar essa face completamente e deixar o fundo exposto.

9. O verniz que se aplica ao fundo da garrafa nesta etapa chama-se verniz fixador fosco. Após cobrir totalmente o fundo com uma camada de verniz, reserva-se a garrafa para que seque. Só então, depois de seca, a garrafa recebe mais uma camada. Repete-se essa operação em torno de quatro vezes para se obter o efeito desejado.

10. Então, troca-se a máscara de face. Agora ela oculta o fundo, enquanto a frente fica exposta, pronta para receber algumas camadas de verniz.

11. Aplica-se verniz fixador brilhante na frente da garrafa, repetindo a estrutura básica da oitava etapa.

12. Finalmente, para as gotas, usa-se uma solução de água e glicerina. A proporção pode variar de acordo com o resultado que se deseje. Em nosso exemplo, usamos 1/1. Use o tipo de borrifador de sua preferência para controlar o resultado. Porém, não se iludam: Esta etapa é muito subjetiva e sujeita a muitas interpretações. Em publicidade há profissionais especializados neste tipo de produção, que pode resultar em horas de tentativas. Aplicam-se as gotinhas de maneira que a garrafa pareça refrescante é o maior desafio da pré-produção. É recomendável preparar várias garrafas antes de começar o tratamento de refrescância, pois a solução de glicerina mancha a superfície envernizada.

13. Tensão superficial – É a propriedade da superfície de um líquido que permite que ele resista uma força externa”. Em nosso caso, refere-se ao comportamentos das gotas sobre a superfície de nossos produtos. Esta é a razão principal do verniz brilhante na face da garrafa; ele permite que as gotas fiquem “soltas”. Observe-se que, quando se encera um carro, a água que cai da chuva corre com mais fluidez e as gotas ficam soltas. É o mesmo efeito que a natureza nos oferece com as gotas de orvalho sobre a superfície das folhas das plantas.

Transparência e refletância

Estes fatores dependem exclusivamente da técnica de iluminacão como os exemplos a seguir.

1. Top light: aqui a luz só atua sobre o topo do produto e delineia os contornos do alto-relevo.

2. Top light com rebatedor branco: começamos a revelar as características do produto. Esta configuração mostra a forma do sujeito, que é uma garrafa de vidro.

3. Top light com dois rebatedores brancos: revelam-se outros detalhes do produto, mas de maneira simétrica. Esta configuração pode ser menos interessante esteticamente — embora isso seja em grande parte questão de interpretação.

4. Top light com rebatedor prateado: como no exemplo (2), mas com um reflexo prateado o contraste é mais acentuado. Nota-se ainda mais a parede verde da espessura da garrafa do lado oposto.

5. Top light com dois rebatedores prateados: assim como no exemplo (3), há menos interesse estético, devido à simetria.

6. Top light com rebatedor prateado posicionado estrategicamente atrás do produto: recorta-se um rebatedor no formato da garrafa de modo que ele possa ser ocultado no ponto-cego. Observe que nesta configuração há somente uma luz e um rebatedor. Neste caso o ângulo de incidência da luz sobre o rebatedor deve coincidir com o ângulo de reflexão na objetiva.

7. Foto final. Com um sutil efeito de refrescância, alcançamos o que em publicidade chamamos de appetite appeal, ou seja, um estímulo à atração do cliente pelo produto.

8. Fundo branco. Nesta foto foi usada a mesma iluminação de (1), porém com um fundo branco.

9. Luz diagonal: é uma técnica muito versátil; mais características do produto são reveladas simplesmente pela direção de luz.

10. Luz diagonal com rebatedor branco: mais características são reveladas e, pela direção de luz, não se obtém um aspecto de simetria.

11. Luz diagonal com rebatedor prateado: como na anterior, mais características do produto são reveladas, mas o contraste é intensificado.

12. Este diagrama exibe o básico dessas fotos com luz lateral: 1. fundo preto; 2. difusor; 3. tocha; 4. sujeito.

13. Já este exibe o esquema básico de uma foto com fundo branco: 1. fundo branco; 2. tochas; 3. rebatedores brancos; 4. difusor branco; 5. sujeito. Note-se que a luz no diagrama é lateral/diagonal, mas poderia ser uma top light ou uma strip light — a técnica para os fundos não variaria.

14. Strip light: mesmo com um difusor largo é possível alcançar o resultado chamado de strip light. Basta cobrir parte do difusor com um gobo.

15. Luz de contorno: usada apenas para delinear a silhueta da garrafa, é uma luz bastante útil para sutilmente ressaltar apenas o formato do produto. O diagrama abaixo ilustra essa configuração.

16. Temos neste diagrama: 1. fundo preto; 2. rebatedores brancos; 3. as tochas de tungstênio; 4. nosso sujeito — no caso, uma garrafa; 5. os gobos (contração do inglês “go between”), anteparos que se colocam entre a luz e o sujeito ou entre a luz e a câmera, para bloquear a fonte. Observe-se que os gobos, além de ocultarem os rebatedores e as tochas, impedem que a luz rebatida “em excesso” atinja a lente causando flair indesejado.

Conclusão

Concluindo, queria ressaltar que a iluminação é a chave de uma boa foto. Hoje, na era digital, as câmeras estão cada vez mais automáticas e o fotógrafo como técnico já praticamente não existe. Como demonstrado acima, resta-nos explorar aquilo que não se automatiza, ou seja, temos que correr atrás de soluções inovadoras, aplicando combinações sutis de diferentes técnicas que no final vão fazer a diferença. Se propusermos uma determinada foto para cinquenta fotógrafos, teremos cinquenta fotos diferentes. Portanto, para ser bem sucedido, é necessário curtir os desafios e divertir-se fotografando até mesmo os stills.

Sucesso a todos!




P.S. Uma recomendação aos nossos futuros profissionais. Assim que se sentirem seguros e experientes filiem-se a ABRAFOTO – Associação Brasileira de Fotógrafos de Publicidade.

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